Para os Guardados (2026)
Para os Guardados (2026), dirigido por Fael Rocha e Desali, exibido na 14º Mostra de Cinema de Tiradentes SP, parte de uma experiência direta com o sistema carcerário e seus atravessamentos no bairro Nacional, na periferia de Contagem, MG.
Desde o título, o filme já desloca expectativas. Não são “presos”, não são “reclusos”: estão Guardados. A escolha não é somente estética, também política. Em vez de apostar em um tratamento mais explícito ou dramático do tema, o filme reduz o tom e trabalha pela contenção. No centro, está a amizade, vínculos entre homens atravessados pelo sistema carcerário. Isso funciona porque não há distanciamento, o que aparece é resultado de convivência.
Fael Rocha e Desali constroem uma dinâmica de filmagem que só funciona de dentro para fora. Não tão somente por terem propriedade sobre o tema, e sim por estarem inseridos nele. Fael convivia diariamente com aquelas pessoas, na comunidade e nos bares. Com essa aproximação, a câmera deixa de ser um elemento de imposição e a gravação reduzida ao essencial: Desali operando toda a captação de imagem e som e Fael dirigindo e atuando. A precariedade técnica não os limita, é também usada como método para conciliar e criar vínculo.
A direção é segura, Fael conduz os personagens e diálogos sem engessar. O roteiro não parte de um texto fechado — ele é construído durante as filmagens, cena a cena. Isso faz com que o filme seja muito textual e também físico. Os elementos que texturizam o filme não são abstratos: estão nos áudios, nas cartas, nos objetos, no som dos kits sendo montados. E assim, a estrutura mistura documentário e ficção sem se preocupar em resolver essa divisão. O filme se organiza em cartas, que funcionam como capítulos. Cartas reais, escritas pela irmã de Fael enquanto também esteve encarcerada.
No documentário tradicional, existe um distanciamento entre quem filma e quem é filmado — muitas vezes marcado por classe e raça. Aqui, esse distanciamento não existe. O filme não tenta se aproximar: ele parte de dentro. A montagem acompanha esse processo. Começa mais organizada e, aos poucos, perde essa estrutura. No final, o filme parece inacabado e isso funciona. Não como falha, mas existe uma coerência com o que está sendo mostrado. Essas histórias não se encerram.
Os criadores também apontam para a lógica do sistema carcerário em uma cena em que aparecem apenas os braços dos presos — tatuagens, gestos, eles fumando e conversando. É nesse diálogo sobre pessoas presas por uma bucha de maconha enquanto quem movimenta grandes quantidades de droga permanece livre, que a cena articula forma e conteúdo, a situação dos Guardados não se trata de casos isolados, mas de um padrão.
Padrão também racial, os corpos que aparecem são majoritariamente negros. Isso se conecta diretamente com a estrutura do encarceramento no Brasil: mais de 70% da população carcerária é negra, mais de um século após a abolição. O filme não transforma isso em discurso, ainda porque é impossível tentar neutralizar esse dado.
Para os Guardados não tenta explicar demais nem buscar redenção. Ele mostra. E, ao mostrar com sensibilidade, expõe um limite: na periferia, quando há grito, não há escuta. Quando há sensibilidade, surge uma falsa ideia de compreensão.
Fica a questão.
E o desejo de liberdade para todos os Guardados.