Por Theo Barricelli
Há uma infinidade de maneiras de definir o que é ser contemporâneo. No turbilhão de notícias que preenchem nosso dia-a-dia, no dever de escrutinar o passado e elaborar um futuro, elementos fundamentais do nosso tempo presente acabam nos escapando. Isso pode muito bem ser entendido pelo viés da banalidade do mal – ou seja, nos encontramos tão acostumados com certas formas de organizar o mundo que não nos damos conta de que talvez estejamos perpetuando, ou ao menos testemunhando, atrocidades que no futuro serão não apenas descaradas quanto motivo de vergonha coletiva. A perpetuação de violências se dá como num transe coletivo, na morte do senso crítico. Nesse sentido, Para Os Guardados (2026) olha justamente para aquilo que no Brasil escapa o ritmo da história: as sequelas do encarceramento em massa. Por olhar para onde pouco se olha numa abordagem que une a intimidade com a vizinhança com uma linguagem abrangente e experimental, é possível que o documentário esteja entre o que há de mais contemporâneo no cinema brasileiro.
Dirigido pela dupla Desali e Rafael Rocha, o documentário tem dois pontos de partida. O primeiro é a experiência cotidiana dos realizadores no bairro Nacional em Contagem, Minas Gerais. Não à toa, são capazes de, a partir de uma equipe mínima de filmagem, se apagar diante de amigos e conhecidos, permitindo um registro aproximado e que pouco interfere nas dinâmicas pessoais. Todos os personagens interpretam a si mesmos e, no geral, parecem confortáveis com a câmera. Em outras palavras, o registro não parte de um olhar estrangeiro e distanciado, mas sim de um olhar já conhecido e empático para a situação de cada um dos personagens.
O segundo ponto é a experiência dos diretores nas artes plásticas. Originalmente concebido como uma vídeo-arte que retrataria a entrega de kits aos presos, o projeto tomou forma para ao fim se tornar um longa-metragem de documentário experimental. Dessa forma, a poética do projeto é livre e se articula numa estrutura episódica, na qual cada momento utiliza de uma abordagem formal diferente dentro do tema geral. Acompanhamos, por exemplo, uma roda de violão e improviso na qual a facilidade da câmera de se colocar entre os personagens é uma demonstração de uma das maiores virtudes do longa. Em outro momento, acompanhamos o diálogo entre dois personagens que usam um dialeto no qual a ordem das palavras é trocada. “Bulocosa” significaria cabuloso, pode-se supor, e ejah significaria já é. A mistura de estilos poderia causar dissonância ou até mesmo contraste excessivo, mas acaba tendo efeito panorâmico acerca do tema, sem grande atrito entre as partes.
Causa admiração, através da potência individual dos blocos colocados em conjunto, o poder mobilizador que surge do filme. Evidentemente, os diretores se apoiam em vários momentos na denúncia das condições dos presos, fazendo uso, inclusive, de relatos em áudio de presos que apontam para esse sentido. “Para os Guardados” consegue, porém, extrapolar a revolta e celebrar as conquistas que ocorrem apesar das condições repressivas impostas, criando um espaço de auto afirmação ao invés de apenas lamentação.
Em conversa após a sessão, Rafael mencionou ter sido preso sete vezes. Curioso notar que o filme, que trata sobre encarceramento e conta com Rafael como um dos personagens principais, não chega sequer a mencionar o fato. Escolhe seguir, é possível dizer, na contramão de filmes que usam a arte para conciliar histórias pessoais. Suas ambições, nesse caso, são muito mais coletivas. Ao direcionar o olhar para os que ainda estão guardados e aqueles que tentam auxiliá-los, Rafael e Desali tomam uma decisão ética que funda a linguagem livre de um documentário de grande potência política.